7 de out de 2008

Vinhos: como enganar os esnobes

Sou assinante da revista Época e posto a seguir um trecho da reportagem de 06/10/2008 sobre uma gafe da publicação mais influente do mundo do vinho,q eu premiou a carta de um restaurante inexistente e com isso azedou a credibilidade dos especialistas. 

Texto de ANDRES VERA
O restaurante italiano Osteria L’Intrepido poderia pendurar numa parede o prêmio que ganhou da prestigiosa revista de enologia The Wine Spectator, a mais influente do mundo quando o assunto é vinho. Só que o restaurante não tem parede. Ele nunca existiu. Isso não impediu que a revista o premiasse com o Award of Excellence, reconhecendo as qualidades de sua carta de vinhos – um diferencial que eleva o prestígio e pode incentivar a clientela a provar rótulos mais caros, ainda que pouco conhecidos. A adega fictícia saiu da imaginação do enólogo americano Robin Goldstein. Ele queria pôr à prova os critérios de seleção dos concursos que determinam o sucesso ou o fracasso de vinhos e de restaurantes. “A idéia era desmistificar especialistas e concursos enológicos que ditam o que é melhor para o consumidor”, disse Goldstein em entrevista a ÉPOCA. 

Ter conquistado o prêmio já seria motivo suficiente para expor ao ridículo os critérios da Wine Spectator. Mas Goldstein fez mais. Entre os 256 rótulos da premiada carta de vinhos do Osteria L’Intrepido, supostamente situado em Milão, no norte da Itália, havia uma seleção estrategicamente desastrosa. Goldstein escolheu apenas vinhos caros – e condenados pela própria Wine Spectator nos últimos 20 anos. Um Amarone Classico “Gioé”, safra 1993, com preço equivalente a R$ 305, havia sido criticado pela revista por ter “caráter de solvente de tinta e esmalte de unha”. O Cabernet Sauvignon “I Fossaretti”, safra 1995, fora descrito como tendo “gosto metálico e estranho”.

Como a revista caiu na armadilha? O truque de Goldstein foi providenciar um número telefônico em Milão com uma gravação em que o restaurante avisava estar fechado para obras. O enólogo ainda criou um blog para o restaurante e postou comentários falsos em fóruns de enologia. Assim, o L’Intrepido aparecia no buscador Google, mesmo sem existir. Isso bastou para que os críticos da Wine Spectator acreditassem que o restaurante era real. “Não visitamos cada um dos restaurantes que participam de nossa premiação”, afirmou Thomas Matthews, editor-executivo da revista. “Prometemos avaliar a carta de vinhos e, quando recebemos a inscrição, assumimos que o restaurante existe”. Isso não justifica premiar uma carta de vinhos que oferece rótulos com gosto de esmalte de unha e inseticida. Entende-se a gafe ao conhecer a natureza dos prêmios criados pela publicação. Eles surgiram em 1981, quando concursos do tipo eram raridade nos Estados Unidos. De lá para cá, se transformaram num negócio que rende milhões de dólares para a revista.

Cerca de 4.500 restaurantes de todo o mundo se inscreveram no concurso deste ano – e apenas 319 não foram premiados. Cada inscrição custa US$ 250. Só com as candidaturas, a receita ultrapassou US$ 1 milhão. “E, quando você vence, eles ligam oferecendo espaço para anúncio”, diz Goldstein. A polêmica ganhou réplica e tréplica no site da revista e no blog do falso restaurante. “Sim, fomos enganados. Mas esperamos que os amantes de vinhos continuem usando nosso guia para encontrar restaurantes e compartilhar sua paixão pelo vinho”, disse Matthews, em defesa da Wine Spectator. “É contraditório a revista premiar uma carta de baixa qualidade, com vinhos mal avaliados pela própria publicação”, diz Manoel Beato, sommelier dorestaurante Fasano e autor do Guia de Vinhos Larousse.
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