29 de mai de 2014

Qual e responsabilidade da agropecuária na emissão de gases de efeito estufa?

Estima-se que a agropecuária responda por 13% das emissões de gases-estufa no mundo. Isso torna o setor o segundo maior emissor global, perdendo apenas para energia. 

No Brasil, as emissões cresceram 45% entre 1990 e 2012. Para identificar volume e fontes, tanto na fazenda como na cadeia de produção, está sendo lançada uma ferramenta específica, o GHG Protocol Agropecuário, que pode ajudar empresas e produtores a elaborar inventários de emissões e definir metas de corte.

O Brasil será o primeiro país a usar a metodologia desenvolvida pelo World Resources Institute (WRI), resultado de mais de dois anos no desenvolvimento da ferramenta em parceria com Embrapa e Unicamp, já testada por seis empresas - Duratex, JBS, Grupo Maggi, Marfrig, BP Biofuels e Bunge.

A metodologia permitirá medir emissões diretas de fontes que ficam nas fazendas como as relacionadas ao uso de fertilizantes nitrogenados, manejo de dejetos, fermentação entérica do rebanho, cultivo de arroz e consumo de combustíveis, por exemplo.

As emissões da agropecuária brasileira estão em segundo lugar no ranking mundial, perdendo só para a China. Para gerenciar suas emissões, produtores e empresas têm que, em primeiro lugar, conseguir medi-las. 

O perfil das emissões brasileiras mudou nos últimos anos com a redução do desmatamento da Amazônia. A agropecuária responde hoje por mais de 30% do total. Também  é importante ficar atendo à questão dos fertilizantes sintéticos, usados para aumentar a produtividade agrícola.  “O Brasil é o maior consumidor de fertilizantes do mundo e, entre 1990 e 2012, aumentou em 347% suas emissões provenientes do uso desse tipo de composto químico.



Contribuições da Embrapa para a sustentabilidade agropecuária

Este foi um dos temas do Painel "Contribuições da Embrapa para a sustentabilidade agropecuária", realizado pelo Sindicato Rural e Embrapa nesta semana, na 50ª Expoagro, em Dourados, MS. Os gases de efeito estufa e o comportamento ambiental dos agrotóxicos foram alguns dos temas tratados por Ângelo Ximenes (presidente da Associação de Empresas de Assistência Técnica Rural de Mato Grosso do Sul - AASTEC-MS), Antônio Nogueira de Jesus (presidente da Associação Comercial e Empresarial de Dourados - ACED), Etenaldo Felipe Santiago (professor do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da UEMS), Daniela Bassan (fiscal ambiental do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul - Imasul), Luiz Alberto Novaes (presidente da Fundação MS) e Nélison Correa (estudante de Engenharia Ambiental da UEMS).

Republicamos a seguir entrevista da pesquisadora Michely Tomazi, da Embrapa Agropecuária Oeste, sobre os gases de efeito estufa e a agropecuária.

1. Como as organizações internacionais têm pressionado o Brasil sobre a emissão de gases de efeito estufa (GEE) sobre a agricultura brasileira?

A preocupação com as emissões de GEE tem repercutido por toda população mundial, pois não é um problema isolado, e direta ou indiretamente atinge a todos.  No caso do Brasil, um país que tem maior parte do PIB proveniente das atividades agropecuárias e boa parte da indústria também está relacionada a este setor, precisa estar atento para a repercussão do efeito da agricultura na emissão de GEE do país.  Sempre que o país for cobrado em relação às emissões, o setor que tem maior contribuição é o que se torna o alvo principal, e hoje é agropecuária.

No âmbito do mercado internacional, nós temos grande parte da economia baseada nas exportações e, por outro lado, temos o consumidor cada vez mais exigente, portanto, precisamos ter bem documentado a contribuição dos setores da nossa economia na emissão de GEE bem como as estratégias que o país vem buscando para mitigar as emissões.

2. E o que têm sido mostrado a estas organizações sobre as ações do Brasil?

O governo federal está atento a esse fato, e possui o "Plano Nacional de Mudanças Climáticas" no qual se comprometeu voluntariamente na convenção de Copenhague a reduzir entre 36% e 39% as emissões de gases causadores do efeito estufa em relação as previsões de 2020.  Essa meta foi a mais otimista entre os BRICs, e desde 2008 já tem demonstrado forte ação na redução das queimadas, o que tem contribuído muito para atingir essa meta.  No setor agrícola, o país tem buscado várias formas de incentivar os agricultores com sistema de produção que contribuição para uma agricultura com baixa emissão de carbono, a exemplo do Programa ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), bem como direcionamento de pesquisas para melhor entendimento contribuição de diversos setores na emissão de GEE bem como na identificação de sistemas com potencial de mitigação.

3. Quais pesquisas estão sendo desenvolvidas em rede nacional pela Embrapa relacionadas ao tema com ênfase para os trabalhos desenvolvidos no MS?

A Embrapa, como responsável pela pesquisa agropecuária brasileira, tem como missão embasar o governo com dados científicos sobre as reais contribuições do setor agropecuário para as emissões de GEE do Brasil.

Os dados utilizados nos inventários até 2010 são calculados principalmente com base em dados médios do IPCC gerados em outros países e que, na maioria das vezes, não refletem a realidade brasileira - segundo especialistas da área, podem estar superestimados.

A Embrapa tem hoje um portfólio de projetos sobre Mudanças Climáticas, sendo três projetos executados nacionalmente e outros regionalmente sobre emissões de gases de efeito estufa.  O Estado de Mato Grosso do Sul está inserido nestes projetos, que juntos buscam disponibilizar ao País dados sobre a contribuição dos sistemas de produção adotados na agropecuária, incluindo o setor de floresta plantada, na emissão ou mitigação de GEE.  O objetivo é avaliar as emissões dos sistemas mais utilizados pelos agricultores, comuns a cada região do País, como também identificação do potencial de sistemas com alta produtividade que possam ao mesmo tempo contribuir para mitigar as emissões.

4. Quais as alternativas de sistemas de produção para reduzir a emissão de gases?

São vários sistemas de produção ou apenas mudanças no manejo dos sistemas já existentes que podem fazer grande diferença.  No Plano ABC são apresentadas algumas destas opções [Recuperação de Pastagens Degradadas; Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) e Sistemas Agroflorestais (SAFs); Sistema Plantio Direto (SPD); Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN); Florestas Plantadas; Tratamento de Dejetos Animais; Adaptação às Mudanças Climáticas>, as quais partem de experiência e estudos anteriores que já mostram a contribuição para reduzir as emissões.  A recuperação das pastagens degradadas, por exemplo, não é uma prática nova, porém quando bem feita, pode contribuir muito para esta redução.  A adoção do sistema de plantio direto, o uso de sistemas integrados, entre outros, todas são alternativas que, além de reduzir as emissões, garantem um maior rendimento ao produtor.

5. Quais são as práticas de manejo que contribuem para a redução da emissão de gases?

São várias as práticas de manejo que podem contribuir, podemos citar algumas como a correção da fertilidade dos solos, plantio direto, rotação de culturas agrícolas com pastagens, uso de fixação biológica, colheita mecanizada da cana, etc.

6. Uma das preocupações para a sustentabilidade é a área econômica.  Com essas alternativas para reduzir emissão de gases, ainda assim o produtor consegue manter a produtividade?

Esse é um questionamento constante dos produtores.  No geral, as práticas que contribuem para reduzir as emissões também contribuem para uma melhoria do sistema de produção.  Como já foi dito anteriormente, todas as práticas do programa ABC, por exemplo, além de contribuir para uma agricultura com baixa emissão de carbono também são práticas que levam ao aumento da produtividade.

7. Na prática, essas opções de sistema de produção e de manejo são fáceis de serem executadas?  Como o produtor pode ter acesso a essas alternativas?

Não são práticas difíceis de serem executadas, depende apenas do produtor entender mais o sistema de produção, buscar apoio de técnicos competentes para assistência.  Já existem inclusive vários produtores no Estado que têm excelentes exemplos de uso destas alternativas, buscaram a informação e implantaram melhorias gradativas na propriedade.  E, hoje, se enquadram nos sistemas de produção indicados para redução das emissões e ainda tiveram uma boa melhoria no lucro do seu agronegócio.  Não existe uma receita única, um pacote pronto, cada um precisa adequar sua propriedade para inclusão das novas tecnologias, gradativamente, de acordo com a capacidade de cada um.  Além disso, tem o incentivo do governo com financiamentos para adequação das propriedades.

8. Hoje em dia, há a preocupação com o futuro do clima na Terra, com a produção de alimentos para a população que deve chegar a nove bilhões em 2050.  Como essas pesquisas e a colocação em prática dessas ações para mitigar a emissão de gases interferem na vida das pessoas, da sociedade?

As pesquisas são de fundamental importância em todos os setores da economia do país, para saber "por onde andamos", qual é nossa realidade no cenário das emissões de GEE.  Elas dão suporte na identificação ou desenvolvimento de estratégias de mitigação, como é o caso dos sistemas de produção que contribuem para reduzir as emissões.  As ações para reduzir as emissões devem vir de todos os setores, pois não é uma ação isolada que vai fazer a diferença.  A sociedade deve estar sempre atenta, cobrando de seus representantes ações nesse sentido, bem como ter consciência e exercer a sua contribuição como cidadão em cada ação do dia a dia, como por exemplo, desligar uma lâmpada quando não está utilizando.  Desta forma, entendo que as ações interferem indiretamente na vida das pessoas pela formação de uma nova consciência a respeito do tema.  Isso afeta vários segmentos da economia, exigindo uma readequação das empresas tanto no meio rural como no urbano para este novo cenário.  Se todos conseguirmos fazer estas mudanças, por menores que elas sejam, estaremos contribuindo para mitigar os efeitos antrópicos nas mudanças do clima.

(Entrevista a Sílvia Zoche Borges da Embrapa Agropecuária Oeste)
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